Já tinha ouvido dizer que o meu velho amigo Roberto tinha caído no desemprego - mas estava longe de imaginar que podia deparar-me com a seguinte cena:
Num jardim dos subúrbios, numa zona em que a relva tinha há muito desaparecido, uma meia-dúzia de jovens rodeavam-no, escutando-o atentamente:
- Isto aqui é um «abafador», e isto é um «olho-de-boi». Vamos lá, repitam!
Eu nem queria acreditar! O Roberto, com o jeito que sempre lhe conheci para explicar as coisas (mesmo as mais complicadas), estava a ensinar aqueles rapazes a jogar ao berlinde! A cena tinha «o seu quê» de poético e enternecedor, pelo que me mantive discretamente afastado até ele anunciar:
- Amanhã vão aprender a saltar-ao-eixo, e depois vamos fazer carrinhos de rolamentos.
Foi só quando o vi sozinho que lhe apareci. Mostrou-se satisfeito por me ver, e comentou, com um travo na voz que não conseguiu disfarçar:
- Como sabes, tenho o curso de formador, nomeadamente de introdução à informática. Todos os dias vejo notícias de pessoas (especialmente de organismos do Estado) a queixarem-se de falta de formação nesse ramo. Já me ofereci (até à borla!) mas ninguém me quer...
A caminho do café, apercebi-me de que a situação era verdadeiramente caricata: tal como faz com 30 ou 40 mil quadros técnicos, o Estado paga ao Roberto mais de 35 euros por dia (de subsídio de desemprego), e deixa-o a jogar ao berlinde!
Talvez por associação fonética, ao ouvir os «bilas» a chocalharem no seu bolso pensei na exclamação «Ora bolas!» - mas era fraca demais...
Por: Medina Ribeiro