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Copyright © 2003 João Pedro Mota Oliveira. Todos os direitos reservados
O GATAFUNHO

                               Confesso que, Ultimamente, tenho evitado passar à porta da
                                                    loja do meu amigo Oliveira.

                                                    Os seus negócios vão de mal a pior; a tabuleta de
                               «Mudança de Ramo» lá continua; a conversa dele acaba
                                                    sempre por descambar em lamúrias; eu começo a dizer que a
                                                    culpa é sua porque não se quer modernizar… e não tarda
                                                    nada acabamos chateados um com o outro.

Mas, enquanto não aparece um comprador para a loja, lá vai mantendo o negócio, melhor ou pior.

Um dia destes viu-me quando ia a abrir a porta e chamou-me.

Embora contrariado, entrei.

O problema é que andava muito intrigado por receber, nos inúmeros faxes que lhe continuam a atafulhar a loja, estranhas palavras com um símbolo esquisito a meio! Tratava-se do "@ ", evidentemente…

«Nos últimos tempos são cada vez mais os faxes e cartas que recebo com este gatafunho. O que será isto?! Ah! e nos últimos dias têm-me também perguntado muitas vezes qual é o meu endereço. Eu bem lhes digo a minha morada, mas parece que não é isso que eles querem saber!».

Ri-me com gosto, e expliquei-lhe que as duas coisas até estavam ligadas, e que se tratava do endereço de Correio Electrónico…

«Ah, essa coisa da Internet de que você anda sempre a falar?!».

E, para minha grande surpresa, fez um ar rendido e decidiu:

«Pronto, então ajude-me lá a instalar essa porcaria. Se tem de ser, então que seja já, que hoje estou bem disposto».

De facto, parecia que o fim-de-semana lhe fizera bem. Estava cheio de energia e disposto a grandes decisões!

Preparei-me para abrir uma caixa que ele ali tinha com um modem de 28800.

«Eh, pá! Esse aí não, que é muito caro! Se é para estragar, abra antes daqueles que dizem 14400!».

Já estava a ver que devido à sua sovinice ainda nos íamos aborrecer, mas depois percebi que o problema era ele não saber muito bem do que se tratava. Expliquei-lhe, então, que esse número era o de "bits por segundo"; que quanto maior ele fosse mais rápida era a ligação telefónica, mais poupava, etc.

Fez umas contas de cabeça e concluiu:

«Pois é, mas não compensa. Para as vezes que eu hei-de usar essa coisa, um dos mais baratos serve muito bem…».

Não respondi. Depois de tudo configurado, pedi-lhe o nome de utilizador e a password.

«O que é isso?! Então você não disse que estava aí tudo?!».

Não me apeteceu discutir. Meti os meus próprios dados e liguei-me…

Ele mantinha-se ligeiramente distante e simulando até um certo desinteresse. Fazia de conta que estava concentrado a rasgar os papeis dos faxes mas, na realidade, lá ia vendo pelo canto do olho o que eu estava a fazer…

«Venha cá» - chamei-o eu a certa altura - «Agora vou saber se há correio para mim».

E assim fiz. Felizmente havia. E o meu amigo Oliveira não resistiu (seria só coscuvilhice?!) e veio espreitar.

Apeteceu-me, então, dar espectáculo: fiz reply a algumas mensagens, forward a outras, mandei até correio para mim próprio… Mas depressa me arrependi:

«Isso é tudo muito complicado!» - comentou ele, com voz arrastada, e limpando o nariz.

Voltei atrás, e expliquei-lhe de novo. Tudo e do princípio. Desta vez com mais cuidado e só mesmo o essencial.

Aproveitámos a ligação e enviámos algumas mensagens, muito especialmente para as tais firmas que lhe tinham pedido o endereço.

Depois, ainda antes de desligar e de novo entusiasmado, dei uma voltinha pela WWW e pelos Grupos de Discussão. Mas vi que já começava a ser demais para a cabeça dele e parei. Despedi-me, e saí com a promessa de voltar em breve.

No meio disto tudo, eu estava a correr um risco:

É que o meu amigo Oliveira iria, durante algum tempo, servir-se da minha conta… Claro que isso ia ser só por uns dias, enquanto eu ia para o estrangeiro e não precisava. Depois, quando regressasse, já ele decerto estaria viciado e se tinha inscrito…

Quando voltei fui direito ao meu computador ver o correio. À mistura talvez houvesse, também, mensagens para ele, pelo que tive o cuidado de activar a opção "deixar o original no servidor".

E se havia! Recebera até uma boa dúzia! Claro que não as abri. Mas também não fui capaz de esperar mais tempo: fui a correr à loja dele e, sem grandes conversas, liguei o programa de mail e puxei novamente todas as mensagens.

Deixou o que estava a fazer e veio ver.

Havia de tudo um pouco: anúncios, Boas-Festas, pedidos de preços e… uma encomenda!!!

«É a minha salvação!» - gritou ele! - «A encomenda que eu há tanto esperava!».

Lemos o texto da mensagem. E um silêncio gelado seguiu-se à euforia…

O que se passara fora o seguinte:

Como era de prever, ele não fora uma única vez, nestes dias todos, ver o correio! E essa tal encomenda era para ser satisfeita até uma data que já passara! Mas o que me siderou foi o comentário dele:

«Eu logo lhe disse que isto da Internet era uma m.! Você já viu que perdi a encomenda da minha vida por sua causa?!».

Eu não sou pessoa para desesperar facilmente, mas, nesse momento, perdi a cabeça! Já não sei bem o que lhe disse, mas acho que disparatei a valer!

Caindo em si, saiu-se com esta:

«Não se zangue, mas eu acho que esta coisa do Correio Electrónico ainda é uma tecnologia muito primitiva! Isto, para ser bem feito devia ser assim: os gajos enviavam a mensagem. Até aí, tudo bem; mas, à parte, mandavam um fax ou um postal a avisar: Ó Sr. Fulano, vá lá ver à Internet a mensagem que lhe mandámos…».
ARQUIVO
Por Medina Ribeiro
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